J B M

Disciplina: Biologia, Apontamentos nas Disciplinas básicas (gerais) e essenciais

Apontamentos do Tema: Cancro

Seção Dividida

Cancro

O que é o cancro

A que chamamos cancro?

A palavra cancro usa-se para denominar um grupo muito numeroso de doenças que têm em comum o desenvolvimento de células anormais. Por causas muito diferentes, estas células começam a multiplicar-se e a crescer sem controlo, algo que normalmente não acontece num organismo, onde a maioria das células está programada para viver um período determinado e se divide de forma controlada.

As patologias que formam o grupo de males a que denominamos “cancro” são mais de 100. Apesar de serem em elevado número, todas elas têm algo em comum: a maneira como a doença começa.

Como começa o cancro?

Todos os tipos de cancro começam com o crescimento anormal e descontrolado de células que se convertem em cancerosas devido a uma anomalia no seu ADN. A função do ADN é dirigir todas as ações das células. Entre muitas coisas, determina que a célula deve morrer ao cumprir o seu ciclo vital. Uma célula sã é capaz de reparar uma possível anomalia no seu ADN; contudo, as células cancerosas não podem fazê-lo. Por conseguinte não morrem, pelo contrário, crescem e formam novas células que o corpo não necessita.

Na figura seguinte, podemos ver a diferença entre uma divisão controlada de uma célula (A) e outra em que a célula se “esquece” da sua capacidade para morrer e se multiplica sem controlo (B).

Esquema A

Esquema B

Esta multiplicação de células pode ocorrer em qualquer parte do corpo. Isto é importante uma vez que, dependendo da zona em que apareça o cancro, o prognóstico, a deteção e o tratamento podem ser muito diferentes.

À medida que as células crescem descontroladamente, acabam por formar-se massas chamadas “tumores” ou “neoplasias”, que, à medida que se vão expandindo, podem provocar lesões ou destruir tecidos sãos. Estes tumores são denominados “malignos”, porque podem estender-se a outras zonas do corpo, diferentes daquela onde têm origem, produzindo as chamadas metástases.

Para que o cancro se produza, é necessário que suceda uma série de etapas que se desenvolvem com o decorrer do tempo. É um processo longo que pode durar décadas:

Esquema Células

Tal como se pode ver na figura, o processo pelo qual se produz o cancro (o chamado “carcinogénese”) começa com a ação de um agente iniciador que provoca uma mutação no ADN. Esta mutação pode ter origem em causas hormonais, infeções, inflamações, etc., mas a pessoa também pode ter nascido com ela. Há ainda fatores externos, como as radiações ou o tabaco, que podem originar o início do processo.

De seguida, é necessário um segundo passo por parte de um agente chamado promotor. Este agente pode também ser congénito, adquirido ou externo, e estimula as células a dividirem-se.

O terceiro e último passo é o que provoca a progressão do tumor. Novas mutações conferem ao tumor a capacidade de invadir, reproduzir-se ou estender-se a outras partes do corpo. Sem este último passo o tumor pode permanecer benigno e localizado. A origem destes fatores é similar à das anteriores etapas. Nesta fase, o ambiente em redor da célula tumoral muda radicalmente. O tumor instaura os seus próprios sistemas de crescimento, promovendo sinais de crescimento.

Tumores que não são malignos

Devemos ter em conta que nem todos os tumores são cancro. Existem dois tipos: os malignos, que são aqueles que se podem disseminar para outras partes do organismo, produzindo o que se denomina “metástases” e os benignos. Estes últimos normalmente não representam qualquer perigo para a vida, porque se multiplicam lentamente e permanecem no lugar onde tiveram origem, embora possam crescer demasiado e pressionar os órgãos vizinhos, acabando por provocar problemas de saúde.

Os tumores benignos, portanto, não são cancro. Normalmente, os médicos podem extraí-los, e, depois da cirurgia, não costumam voltar a aparecer.

Qualquer que seja o tipo de tumor diagnosticado, siga as instruções do seu especialista, que determinará o tratamento mais adequado para si.

Epidemiologia

O cancro continua a ser uma das principais causas de morbimortalidade. Nos últimos 20 anos, o número de tumores diagnosticados conheceu um crescimento importante em Portugal, devido não só ao aumento populacional, mas também às técnicas de deteção precoce e ao aumento da esperança média de vida. Os esforços nesta área fizeram com que o risco de mortalidade por cancro tenha vindo a decrescer nos últimos 20 anos.

Uma das razões pelas quais cada vez mais gente sobrevive ao cancro é a deteção precoce. É vital diagnosticar o tumor o mais cedo possível, evitando-se o tratamento quando o seu estado já é avançado. Mesmo assim, ainda que a doença não seja diagnosticada num estado inicial, existem terapias para os casos que já têm alguma evolução. Lembre-se  que cada cancro tem um tratamento diferente, pelo que não é possível generalizar sobre o prognóstico que venha a ser dado ao doente.

Uma das variáveis que pode influir na incidência do cancro é o género. Homens e mulheres têm uma probabilidade diferente de padecer de vários tipos de cancro. No caso dos homens, o cancro mais comum é o da próstata, pulmão, colon, estômago e recto. Por outro lado, as mulheres sofrem sobretudo de cancro da mama, cólon, tiróide, estômago e corpo uterino.

 

Tipos de cancro

O tipo de cancro é definido pela parte do corpo onde se localiza o tumor primário. Por exemplo, se o tumor primário se localiza na próstata e se estende a outros órgãos, continuará a chamar-se “cancro da próstata” e não cancro do rim ou do fígado, ainda que se tenha propagado a esses órgãos.

Assim, existem quatro tipos de cancro bem diferenciados em função do tecido em que têm origem:

Carcinoma

Este tipo de tumor é o mais comum, representando 80% dos cancros. Entre eles encontram-se o carcinoma do pulmão, mama, cólon, próstata, pâncreas, bexiga ou estômago, e formam-se à superfície dos órgãos (células epiteliais). Existem vários subtipos de carcinoma, incluindo o adenocarcinoma, o carcinoma das células basais, o carcinoma de células escamosas e o carcinoma de células transicionais.

Sarcoma

O sarcoma forma-se no chamado tecido conectivo ou conjuntivo (músculos, ossos, cartilagem ou tecido gordo). Os mais frequentes são os sarcomas ósseos.

Leucemia

A origem da leucemia encontra-se na medula óssea, que é o tecido responsável por manter a produção de glóbulos vermelhos, brancos e plaquetas. Este tipo de cancro provoca a produção de um grande número de células de sangue anormais.

Linfoma

Os linfomas são um tipo de cancro que se desenvolve a partir de tecido linfático, que se encontra nos gânglios e órgãos linfáticos. Há dois tipos principais de linfoma: o linfoma de Hodgkin e o linfoma não-Hodgkin.

Outros cancros

Um dos outros tipos de cancro, que não se englobam nos anteriores, são os que afetam o sistema nervoso central. Trata-se de tumores localizados no cérebro e na espinal medula.

Assim, dependendo da sua origem, o cancro recebe um nome diferente. E dentro de cada categoria existem múltiplos tipos, cada um deles com prognóstico e tratamento diferentes, tendo em comum o crescimento descontrolado de células.

 

O que pode originar um cancro

No cancro, as células começam a dividir-se descontroladamente, o que acontece devido a uma lesão no ADN (genético) ou também nos mecanismos da sua regulação (o que se chama dano epigenético). O ADN está presente no núcleo de todas as células e fornece o código genético que determina todas as características individuais das pessoas. Todos nós podemos herdar dos nossos pais este dano produzido no ADN ou nos seus reguladores, existindo uma percentagem de casos em que o cancro é hereditário, ainda que essa percentagem seja baixa.

Entre 10 a 20% do total de casos de cancro desenvolve-se em pessoas com um histórico familiar (o que se chama cancro hereditário). Tal acontece porque as mutações de um ou dos dois progenitores podem transmitir-se à geração seguinte. Ter esta mutação não significa que se vá sofrer de cancro de forma irremediável, já que tudo depende da natureza da mutação, além de que existem muitos outros fatores de risco que se podem controlar.

Podemos dizer, portanto, que alguns tipos de cancro são de origem genética, mas a maioria dos casos não está relacionada com os genes que herdamos dos nossos pais. Muitos cancros são influenciados por fatores externos que podem aumentar o risco de desenvolver a doença, como por exemplo o tabaco, a obesidade ou o álcool.

De qualquer modo, se na sua família há ou houve casos de cancro, pode solicitar um rastreio genético para determinar as mutações que possam aumentar o risco de sofrer do mesmo. Mas tenha em conta o que foi dito anteriormente: o facto de ter essas mutações não implica com segurança que vá sofrer de cancro. Tal dependerá de muitos outros fatores relacionados, por exemplo, com o seu estilo de vida. De facto, há múltiplos fatores de risco que aumentam a probabilidade de sofrer de cancro que podem afetar qualquer um de nós, devendo optar por hábitos de vida saudáveis.

Fatores de risco

Os genes vêm determinados desde que nascemos e não podemos fazer nada para os modificar, mas podemos ter atitudes e comportamentos que aumentem ou diminuam a probabilidade de sofrer da doença. De facto, 90% dos cancros são provocados por fatores externos – fatores que aumentam a probabilidade de sofrer de cancro, como já se demonstrou.

Independentemente de ser uma pessoa saudável ou de lhe ter sido diagnosticado um cancro, é conveniente que saiba quais são os fatores, de forma a poder evitá-los:

Tabagismo: É o fator de risco mais importante, já que é responsável por um terço das mortes por cancro. É a primeira causa do cancro do pulmão, também influenciando negativamente o surgimento de outros tipos de cancro, como o da cabeça e pescoço, o do esófago, o do estômago, o da bexiga ou o do pâncreas;

Álcool: Beber álcool em excesso pode incrementar o risco de alguns tipos de cancro, como o cancro da cabeça e pescoço, o da laringe e o do esófago. Se, para além de consumir demasiado álcool, a pessoa é também fumadora, este risco aumenta;

Dieta e exercício: Uma dieta pobre ou insuficiente, assim como a falta ou a ausência de exercício físico, são dois fatores que incrementam o risco de sofrer de cancro. Está demonstrado que o excesso de peso ou a obesidade aumenta as possibilidades de padecer de cancro da mama, do cólon, do esófago, do pâncreas ou do rim;

Agentes químicos: Alguns agentes químicos têm sido associados a um maior risco de cancro. Entre estes encontra-se o amianto (presente nos materiais de construção e isolantes), os benzenos (presentes em petróleos), o gás rádon (presente em granitos e minas de carvão) e as naftilaminas;

Radiações: A exposição prolongada e intensa a radiações, como a ultravioleta, os raios-X ou as eletromagnéticas de baixa frequência também podem aumentar a probabilidade de vir a sofrer de cancro;

Infeções virais: Alguns vírus estão relacionados com o aparecimento de cancro, como o papiloma vírus humano (HPV), transmitido por via sexual e que é o causador de alguns tipos de cancro do colo do útero e da orofaringe;

 

Diagnóstico

Exames

No momento de diagnosticar um cancro, há muitos exames que o seu médico pode realizar, dependendo da parte do corpo afetada. Estes exames, entre os quais testes laboratoriais ou imagiológicos, permitem ao seu médico determinar o estadio em que a doença se encontra. Para escolher os exames mais adequados, o seu médico terá em conta a sua idade, sintomatologia,  gravidade dos sintomas e história clínica.

Além disso, cada tipo de cancro tem exames específicos que ajudam o seu médico a confirmar ou descartar uma suspeita de diagnóstico de cancro. Alguns dos exames mais comuns são:

  • Biópsia: Trata-se de um procedimento médico que, em muitas ocasiões, é a única maneira de chegar a um diagnóstico definitivo, uma vez que se baseia na análise de uma amostra do tumor. Normalmente, uma biópsia é recomendada após um exame físico feito pelo seu médico e exames de imagens como radiografias.
  • Ressonância magnética: É uma técnica de diagnóstico que usa campos magnéticos para capturar múltiplas imagens detalhadas do órgão ou tecido que se quer observar.
  • TAC (Tomografia axial computorizada): É uma técnica de diagnóstico utilizada para detetar tumores, determinar o estadio da doença e verificar se células cancerígenas se disseminaram. Também é frequentemente utilizada em alguns tipos de cancro para observar se o tratamento está a ser eficaz.
  • Endoscopia: É um procedimento médico que permite ao clínico verificar o interior do tubo digestivo até ao intestino através da inserção de um endoscópio pela boca. Estes aparelhos têm uma câmara que transmite imagens de elevada definição para um ecrã permitindo identificar anomalias no tubo digestivo.
  • Colonoscopia: Á semelhança da endoscopia, este exame permite verificar o interior do intestino grosso e parte final do intestino delgado através de um endoscópio. As imagens obtidas ajudam a identificar a existência de lesões nas paredes intestinais e a diagnosticar tumores como o do cólon.
  • Marcadores tumorais: Os marcadores tumorais são substâncias que se encontram em níveis mais elevados do que o normal no sangue, urina, ou tecidos de alguns doentes com cancro, podendo ser indicadores de malignidade.

Estadiamento

A partir do momento em que um cancro é diagnosticado, é necessário estabelecer em que estádio de evolução se encontra. No caso de se estender para além do órgão que o originou, denomina-se “cancro avançado ou metastizado”. Quando está em tratamento, existem várias possibilidades: se a doença progride apesar do tratamento, diz-se “progressão”. Se permanece estável, chama-se “doença estável”. Também pode acontecer que o tumor diminua de tamanho (“resposta parcial”) ou, na melhor das hipóteses, desapareça (“resposta completa”).

Por outro lado, o termo “recorrente” utiliza-se quando o cancro volta após remissão. Todos estes termos podem ser úteis na consulta com o seu médico. Caso tenha dúvidas sobre qualquer dos seus significados, não hesite em perguntar-lhe.

O estádio em que se diagnostica o cancro é muito importante por várias razões. Entre elas, o que determina a decisão do médico sobre que abordagem terapêutica optar é a fase de desenvolvimento em que se encontre o tumor. O objetivo é que o doente receba a terapia mais adequada ao seu caso. Para além disso, saber o estádio em que encontra o cancro ajuda o especialista a estabelecer um prognóstico, de modo a que o doente saiba que resultados esperar do tratamento.

Por fim, o estadiamento é a forma de descrever onde está localizado o cancro, se se estendeu para outras partes do corpo, e se está a afetar o funcionamento de outros órgãos do corpo. Os médicos podem basear-se no Sistema TNM para classificar tumores sólidos, com base em três fatores: o tamanho e a localização do tumor primário (Tumor – T), se o cancro se estendeu aos nódulos linfáticos localizados perto do tumor (Nódulo – N), e se o tumor propagou a outras partes do corpo (Metástases – M).

O cancro classifica-se em quatro grupos em função do seu crescimento e expansão:

  • Estádio 0: Emprega-se este estádio para descrever o cancro “in situ”, isto é, aquele que está localizado no sítio em que começou, e que não invadiu os tecidos em redor. Normalmente, este cancro tem cura e requer cirurgia para o extirpar por completo.
  • Estádio I: Neste estádio, o tumor é pequeno e não chegou a afectar os tecidos circundantes, nem chegou aos nódulos linfáticos.
  • Estádio II e III: Nestes estádio, os tumores são maiores e normalmente estenderam-se aos tecidos em redor ou atingiram aos nódulos linfáticos, mas não chegaram a afectar outras partes do corpo.
  • Estádio IV: Este é o estádio mais avançado de cancro, também chamado de cancro metastático. Significa que o tumor se propagou a outras partes do corpo distantes do tumor primário.

Biomarcadores

Para conhecer melhor as características do tumor, é importante identificar biomarcadores que  ajudam a prever a evolução da doença e o tratamento mais adequado a cada doente. Tratam-se de moléculas ou genes que estão no organismo e que podem ser produzidos pelo próprio tumor e, em alguns casos, por outros tecidos em resposta à presença do tumor.

Existem diferentes tipos de biomarcadores em função da informação que proporcionam sobre a doença. Em concreto, existem três grandes tipos:

  • Biomarcadores de diagnóstico: Determinantes na identificação e diagnóstico de tipos concretos de cancro.
  • Biomarcadores de prognóstico: Facilitam informação sobre como pode evoluir a doença.
  • Biomarcadores preditivos: Permitem prever como o doente responderá a um determinado tratamento.

Prevenção do cancro

 

Os benefícios da prevenção

Em Portugal, como em muitos outros países, o cancro é um problema de saúde pública devido à sua elevada incidência. Mas é importante destacar que, salvo os casos em que a causa é genética, a maioria das vezes o seu surgimento está associado a fatores de risco que são evitáveis. A ideia de que, ocasionalmente, o cancro se deve a fatores externos que, por vezes, estão sob o nosso controlo, faz com que seja imprescindível realizar um trabalho de educação e pôr à disposição das pessoas as ferramentas necessárias para poder evitá-lo.

Entre os fatores de risco mais importantes encontra-se o tabaco, responsável por 30% da mortalidade produzida por cancro. Além disso, as pessoas entre os 35 e os 69 anos que fumam têm três vezes mais probabilidades de falecer por cancro que os não fumadores.

 

Portanto, deixar de fumar é importante para o prevenir. Abandonar o hábito tabágico diminui realmente o risco de cancro, independentemente da idade em que se abandone.

A dieta também pode ter um papel importante na prevenção do cancro, uma vez que a maneira como nos alimentamos influi em 30 a 35% dos cancros nos países industrializados. As estimativas indicam que uma dieta saudável, um peso adequado e o hábito de fazer exercício físico moderado podem reduzir a incidência de cancro entre 30 a 40%, sobretudo o de mama, o do endométrio, o do cólon, o do rim e o do esófago.

O álcool também é o causador de 3% das mortes por cancro nos países desenvolvidos, e está demonstrado que o seu consumo excessivo aumenta o risco de cancro oral, de faringe, de laringe, de fígado ou de mama. E se ao consumo de álcool se juntar o hábito de fumar, o risco aumenta significativamente.

Além disso, alguns tipos de cancro de pele podem evitar-se limitando a exposição ao sol, pelo que a prevenção pode passar pela utilização de protetores solares nos dias em que as pessoas vão apanhar sol.

A importância da deteção precoce

Muitos cancros têm um processo muito longo desde que se começa a produzir até se encontrar numa fase avançada. Isto, juntamente com o facto de que ainda se desconhece as causas de alguns tipos de cancro, faz com que a deteção precoce – isto é, diagnosticar o cancro na sua fase mais inicial – seja fundamental para melhorar o prognóstico dos doentes. A pessoa pode receber tratamento num estado inicial, sem esperar que o cancro se encontre, por exemplo, em fases mais complicadas como metastizado.

O objetivo da deteção precoce é diminuir a incidência da doença, evitar sequelas, melhorar o prognóstico e diminuir o risco de mortalidade. Este objetivo baseia-se em dois pilares fundamentais:

  • Educação: É bom que a pessoa reconheça por si própria determinados sinais e sintomas pelos quais todos devemos consultar um médico, pelo que é necessário realizar, de vez em quando, uma autoexploração. Por exemplo, devemos ter em atenção se um sinal muda de forma ou de tamanho, se perdemos peso de forma repentina, estar alerta se aparecer algum caroço (no peito, por exemplo) ou se alguma ferida não cicatriza ou uma rouquidão que não passa. Quanto mais informados estivermos, mais controlo teremos sobre a nossa saúde e no momento de alertar o médico perante a suspeita de algum indício de cancro.
  • Rastreio populacional ou screening: Trata-se de um conjunto de exames que se levam a cabo numa determinada população, com o objetivo de detetar uma doença antes mesmo que tenha manifestações clínicas. Existem três tipos de cancro em que ficou demonstrada muito claramente a eficácia deste tipo de exames: o cancro de mama, o do colo do útero e o do colo-retal.

Principais tratamentos para o cancro

Cirurgia oncológica

Por vezes, os médicos podem determinar a necessidade de recorrer à cirurgia para remover o tumor. A cirurgia é a forma de terapia mais antiga contra o cancro. Usa-se não só para verificar de que tipo de tumor se trata ou ver se se disseminou, mas também para restabelecer a função do corpo que foi danificada pela sua presença, extraindo o tecido canceroso em parte ou na totalidade.

Após a operação, é possível que o doente não volte a necessitar de receber mais tratamentos, ou, dependendo do tipo de cancro de que sofra, é possível que tenha de seguir outro tipo de terapia, como a quimioterapia ou a radioterapia. Isto acontece normalmente quando não é possível excisar por completo um tumor através da cirurgia. Nestes casos, empregam-se outros tratamentos que possam eliminar a parte do tumor que não se pôde extrair.

Tabém há casos em que se chegam a fazer tratamentos antes da cirurgia, na tentativa de reduzir o tumor que se irá posteriormente retirar.

Quimioterapia

A primeira coisa que temos de saber é que, embora muitos cancros necessitem de quimioterapia, nem sempre é assim. Dependerá do tipo de tumor que afeta o doente, se é maligno ou benigno, do estádio do cancro, do órgão em que se encontre, se está localizado ou disseminado, e, finalmente, do que o médico considera com base em múltiplos parâmetros. No caso de o doente necessitar deste tratamento, é bom que este saiba em que consiste o mesmo, para que esteja consciente do que vai enfrentar nas semanas ou meses seguintes.

Em quimioterapia, são utilizados diferentes fármacos que afetam o metabolismo e o crescimento celular. O seu objetivo é destruir células cancerosas e evitar que estas se dividam e se reproduzam. Regra geral, as células tumorais crescem e dividem-se mais rapidamente do que as células normais, o que as torna mais suscetíveis à ação desses fármacos. A parte negativa é que, às vezes, esta terapia também pode afetar células saudáveis, o que pode causar efeitos adversos.

Células do corpo que se dividem rapidamente como as do cabelo também são atacadas pelo que um dos efeitos secundários de alguns tipos de quimioterapia é a queda de cabelo.

Quanto à duração do tratamento, esta pode variar de acordo com o tipo de cancro de que o doente sofre e da resposta do corpo. Em qualquer caso, o médico informará o doente sobre o número de sessões de quimioterapia a que o deverá submeter. Caso não o faça, não hesite em perguntar, pois isso irá ajudá-lo a preparar-se para lidar com o tratamento.

O seu médico também poderá recomendar alguns medicamentos para que sejam minimizadas as possíveis reações adversas (como vómitos, por exemplo).

Radioterapia

Trata-se de outro tipo muito comum de tratamento para o cancro, a que se submete mais de metade das pessoas com esta doença. Consiste em administrar radiação durante um determinado período, com o objetivo de destruir as células cancerígenas, mas sem danificar o tecido saudável em volta. Pode ser administrado em duas opções: como tratamento principal ou como tratamento adjuvante, ou seja, administrado após a terapia principal para eliminar os possíveis restos de células cancerígenas. Muitos tipos de cancro respondem melhor quando vários tratamentos são combinados, como a cirurgia, a quimioterapia ou a radioterapia.

Terapias dirigidas

Este tipo de terapia atua sobre os genes e as proteínas específicas que só se encontram em células cancerígenas, ou sobre as condições concretas que contribuem para o crescimento e sobrevivência do cancro. O objetivo da terapia dirigida é bloquear ou desativar os sinais que dizem às células cancerosas que cresçam e se dividam, promover processos que causem a morte celular natural e administrar substâncias tóxicas específicas para estas células com o fim de as destruir. Muitas vezes, emprega-se com outros tratamentos, como a quimioterapia, para deter o crescimento do cancro.

Existem três tipos de terapias dirigidas:

  • Anticorpos monoclonais: Bloqueiam um alvo localizado no exterior das células cancerígenas. São normalmente administrados por via intravenosa, uma vez que são formados por moléculas grandes e, de outra forma, o corpo não seria capaz de as absorver;
  • Medicamentos de moléculas pequenas: O seu objetivo é bloquear os processos que ocorrem no interior das células cancerígenas e que são responsáveis pela sua multiplicação e disseminação. Estas terapias são administradas por via oral;
  • Inibidores da angiogénese: Este tipo de terapia é dirigida ao tecido que envolve o tumor, e o seu objetivo é deter o processo de formação de novos vasos sanguíneos, o chamado angiogénese. Desta forma, pode, por assim dizer, “matar de fome” o tumor, impedindo que cresça e que se espalhe.

Nem todas as terapias dirigidas resultam em todas as pessoas. Um exemplo disso é o gene chamado KRAS, cuja função é controlar o crescimento e a disseminação do tumor. Em 40% dos casos de cancro colo-retal, por exemplo, este gene encontra-se mutado, pelo que as terapias dirigidas não funcionam. Portanto, é aconselhável fazer exames de deteção de mutações deste gene antes de começar a terapia, para que se administre ao doente o tratamento que o médico considere mais eficaz para o caso em questão. Se o gene KRAS não tiver mutação, as terapias que bloqueiam o recetor do fator de crescimento epidérmico (EGFR), que costuma ser produzido em excesso neste tipo de cancro, podem ser eficazes para atrasar a progressão deste cancro.

Imunoterapia

imunoterapia, que também recebe o nome de terapia biológica ou de imuno-oncologia, é um tipo de tratamento que ajuda a estimular as defesas naturais do corpo para combater o cancro. A imunoterapia ajuda o sistema imunológico a aumentar a sua eficácia para deter ou atrasar o crescimento das células cancerígenas, evitando, assim, que o cancro se espalhe, e contribui para aumentar a sua eficácia na eliminação de células cancerígenas.

Existem três tipos principais de imunoterapia que o seu médico pode administrar, caso esteja indicado para o seu tipo de cancro:

  • Anticorpos monoclonais: Estes anticorpos não são fabricados pelo corpo, mas são fabricados em laboratório. No entanto, combatem da mesma maneira que os anticorpos criados naturalmente pelo nosso sistema imunológico. Atuam atacando as proteínas específicas encontradas na superfície das células cancerígenas ou das células que sustentam o crescimento das células cancerígenas, com o objetivo de as destruir e evitar a sua proliferação;
  • Imunoterapias inespecíficas: As mais comuns são os interferões, que ajudam a combater o cancro e podem atrasar o seu crescimento, e as interleucinas, que ajudam o sistema imunológico a produzir células que destroem o cancro. O seu objetivo, tal como com os anticorpos monoclonais, é ajudar o sistema imunológico do doente a destruir as células;
  • Vacinas para o cancro: Existem vacinas que podem prevenir o aparecimento de cancro (quando o tipo de cancro está relacionado com um vírus) e vacinas para o seu tratamento, quando este já se produziu (cujo objetivo é ajudar o sistema imunológico a reconhecer e a destruir células cancerígenas).

Outros tratamentos:

Além de todos os indicados anteriormente, existem outros tipos de terapias que também podem ser administradas se a situação o exigir. Entre estas, encontra-se o transplante de células estaminais. Trata-se de um procedimento de substituição da medula óssea por células estaminais altamente especializadas que são convertidas em medula óssea saudável. É recomendado geralmente para pessoas que sofrem de leucemia, de mieloma múltiplo e de alguns tipos de linfoma.

Há muitas opções de tratamento para o cancro. Todas as decisões que você tenha de tomar, no caso de ser diagnosticado com a doença, dependerão do tipo de cancro, do seu médico e de si.

 

Qualidade de vida no cancro

Tenho cancro. Como será afetada a minha qualidade de vida?

Se lhe foi diagnosticado cancro, a sua pergunta, entre muitas outras questões, é como será a sua qualidade de vida durante o processo.

Atualmente, existem vários tratamentos que o seu médico pode prescrever para controlar a doença e controlar os efeitos colaterais mais comuns de algumas terapias, como as náuseas e os vómitos.

Nem todas as pessoas sofrem destes efeitos secundários, mas se isso acontecer, deve informar o seu médico para que ele possa aconselhar uma solução. O objetivo é que os profissionais de saúde ajudem para que a sua doença afete o menos possível a sua qualidade de vida e para que possa, dentro do possível, ter uma vida normal.

Enfrentar o primeiro dia de tratamento

Cada pessoa é única e enfrenta o primeiro dia de tratamento de forma diferente. É normal que se gerem sentimentos diferentes durante o processo de tratamento, como sentir-se nervoso ou preocupado no início. Mas o importante é estar relaxado e calmo no primeiro dia de tratamento, bem como nos seguintes.

Para isso, recomenda-se que um ente querido ou amigo o acompanhe, que faça exercício (sempre sob supervisão médica) ou que fale sobre o que sente com alguém em quem confia ou com pessoas que passaram ou estão a passar pelo mesmo.

Normalmente, deve dirigir-se a uma sala específica do hospital para que lhe seja administrado o tratamento. Na maioria dos casos, poderá regressar a casa no próprio dia, embora, às vezes, o tipo de tratamento ou a condição física em que se encontre exija uma breve permanência hospitalar.

Para estar mais confortável e relaxado durante este tempo, é aconselhável fazer um pequeno-almoço leve, o que o ajudará a lidar com possíveis náuseas. Para aliviá-las, também pode tomar rebuçados de menta ou de gengibre. Além disso, não se esqueça de uma garrafa de água e de ir com roupas confortáveis ou com algum agasalho, caso tenha frio. Para se distrair, pode ler um livro ou ouvir música. Em qualquer caso, deve ser sempre algo que não exija muito esforço.

Os efeitos secundários dos tratamentos

Os possíveis efeitos adversos dependerão do tipo de tratamento recebido, de alguma doença crónica de que padeça e também de como o seu corpo reage à terapia. No caso do cancro, por exemplo, os fármacos utilizados são cada vez mais eficazes, uma vez que se obtêm melhores resultados com um melhor controlo dos efeitos secundários. No entanto, é bem possível que, ao receber tratamento para o seu cancro, sofra de algum tipo de efeito adverso, pelo que é importante ter consciência deste facto.

Estes são alguns dos efeitos mais comuns:

  • Cansaço e sensação de desmaio: Isto pode impedir que realize as atividades quotidianas. Se sente mal-estar, fale com o seu médico e, acima de tudo, com os seus familiares e amigos, pois são quem mais o podem ajudar;
  • Problemas bucais: Outro dos possíveis efeitos secundários são os problemas da boca. A alteração mais frequente é a mucosite, que consiste numa inflamação da mucosa da boca e pode produzir úlceras dolorosas ou feridas, podendo mesmo causar sangramento ou infeção da gengiva. Para evitar estes problemas, é essencial que mantenha uma boa higiene oral e que visite regularmente o seu dentista;
  • Náuseas e vómitos: Estes são dois dos efeitos secundários mais conhecidos e temidos dos tratamentos, como a quimioterapia. Hoje, existem soluções para aliviar as náuseas e os vómitos. Por isso, se sofrer destes sintomas enquanto recebe o tratamento, informe o seu médico, pois certamente lhe poderá oferecer uma solução;
  • Problemas digestivos: Tanto a obstipação como a diarreia podem ocorrer com a quimioterapia, pois a mucosa do intestino pode ser afetada. Se tem obstipação, tente beber muitos líquidos e comer alimentos ricos em fibras (como pão ou arroz integral) e fazer exercício de forma moderada. Se, por outro lado, sofre de diarreia, evite alimentos ricos em fibras, evite o consumo de leite e seus derivados, procure comer pequenas quantidades de cada vez, mas mais vezes ao longo do dia, entre outras recomendações. Em qualquer dos casos, consulte sempre o seu médico;
  • Alterações no apetite e no paladar: Durante o tratamento de quimioterapia, poderá perder o apetite ou até sentir que a comida não lhe sabe ao mesmo. Não se preocupe, é uma situação normal e é outra consequência do tratamento. Se tal acontecer, é aconselhável que mude a forma como habitualmente prepara os alimentos. Por exemplo, experimente utilizar mais especiarias, como o alecrim e o manjericão, e experimente também bochechar a boca com água antes de comer;
  • Queda de cabelo: É um dos efeitos secundários mais conhecidos da quimioterapia, especialmente pelo impacto que causa nos próprios doentes e naqueles que os rodeiam. Se perder parte ou a totalidade do seu cabelo, pense que é uma situação temporária e que, uma vez terminada a terapia, ele voltará a crescer, podendo, eventualmente, surgir com diferentes características (cor, textura, etc.). Seja como for, nem todos os tratamentos com quimioterapia provocam queda de cabelo e esta é uma questão que poderá colocar ao seu médico para que se possa preparar, caso aconteça.

Com o surgimento dos efeitos secundários do tratamento, não hesite em partilhá-los com o seu médico ou com o seu enfermeiro, e dizer-lhes como se sente. Não deve assumir sempre todos estes efeitos como normais, mesmo os mais incómodos. E, embora possa parecer muito repetitivo, nunca se esqueça de falar sobre eles sempre que tiver uma dúvida.

Como enfrentar os vómitos e as náuseas

Os vómitos e as náuseas provocados pelos tratamentos para o cancro são especialmente frequentes, uma vez que afetam cerca de 50% dos pacientes que recebem quimioterapia. Estes efeitos afetam muito a qualidade de vida dos doentes e, por vezes, provocam o surgimento de complicações, como a desidratação e o desequilíbrio eletrolítico, podendo mesmo conduzir a uma mudança de terapia.

Existem vários fatores que influenciam a predisposição de cada pessoa no momento de ter estes efeitos secundários, como a idade, o sexo, ter tido náuseas ou vómitos em quimioterapias anteriores, o alcoolismo, etc..

Se isto lhe acontecer enquanto estiver a receber tratamento para o cancro, saiba que existem terapias que o seu médico lhe pode administrar para controlar esses efeitos secundários desagradáveis.

Dependendo do tratamento que lhe está a provocar náuseas e vómitos, da dose, da frequência e da via de administração, existem diferentes possibilidades:

  • Antagonistas dos recetores de dopamina;
  • Antagonistas dos recetores serotoninérgicos;
  • Corticoesteróides;
  • Antagonistas da substância P;
  • Benzodiazepinas.

Para além dos fármacos, é muito aconselhável utilizar técnicas de relaxamento que ajudem a controlar as náuseas. É claro que também é essencial fazer uma alimentação adequada ao longo do tratamento, evitando alimentos que o organismo não tolera. Além disso, é recomendado que sejam feitas refeições ligeiras, ou seja, que se coma mais frequentemente mas em menos quantidades. Tudo isto ajudará a enfrentar este possível efeito secundário e a mantê-lo controlado.


Compilado por Formador: Jose Bernardo Muchanga

0
0
0

Comentários:


Compilado por Formador: Jose Bernardo Muchanga


Sobre JBM

Esta página foi projetada por JBM para facilitar ao usuário a busca parcial e completa dos conteúdos de várias disciplinas, enriquecendo assim seus estudos.

Tag Link Estelizado

Baixa manuais e outros materiais no JBM.


Gerar pedf desse apontamento inicio